Foto: Esther Morán

“O resultado sai na segunda, você ainda vai estar aqui?” Assim, minha mente deixou seu estado de latência, tão comum naqueles meses, e tomou consciência do que estava prestes a acontecer. Incrível como pequenos comentários ou uma simples frase pode mostrar um significado até então despercebido para nossas vidas, parecendo beliscões que nos trazem à realidade durante um sonho. A mistura de sentimentos tão difíceis de explicar explode no peito e subitamente uma sensação eufórica me domina. “Não, não estarei aqui na próxima segunda!"

Atravessar o Oceano Atlântico finalmente parece ser algo palpável. O sonho deixou de habitar apenas o Mundo das Ideias para ganhar seu lugar também no Mundo do Sentido e, por fim, concretizar-se. Se para Platão este último era apenas uma cópia imperfeita do primeiro, para mim não havia como alcançar maior perfeição. Ah, Europa! Como esperei para te conhecer! As economias, discussões e pesquisas realizadas originaram planos e fermentaram minha imaginação na tentativa de adivinhar como seria o grande momento.

E assim, os sentimentos adolescentes associados aos sonhos e possíveis aventuras afloram. Os mesmos de quando costumava criar personagens nas minhas histórias preferidas para eu também participar do enredo. Dos tipos que fazem o sangue ferver, proporcionando uma vontade incontrolável de correr mundo afora para gritar aos quatro cantos a alegria sentida e nos fazem querer abraçar desconhecidos enquanto ensaiamos uma dança pelas ruas.

Ver um sonho prestes a se concretizar é como uma descarga de adrenalina jorrando por nossas veias após um salto em queda livre. Cada detalhe preparado, a decepção por abdicar algo e a consequente alegria por executar um detalhe a mais do que estava planejado são o que tornam a véspera ainda mais emocionante. Sentia-me como uma pirata, levando uma vida de aventuras enquanto desbrava os sete mares em busca do tesouro. Do precioso tesouro com muitas experiências, amizades e “conquistas de território”.

Hoje já se passou um ano desde o tão esperado embarque, mas as emoções vividas nesse período parecem não me abandonar. Ficam adormecidas para virem à tona sempre que as lembranças gravadas nas fotografias, nos souvenirs e na memória são solicitadas. As lágrimas, que naturalmente correm nesses momentos, despertam toda a saudade em potencial no meu peito. Saudade dos dois meses vividos em terras d`além mar.